Pensata Errante
Blog de ideias ao vento, de histórias escondidas e de pensamentos surgidos sem pedir licença. Literatura, cinema, música, TV, livros... Escrever e criar. Minhas paixões estão aqui.
04 Maio 2011
02 Maio 2011
Tem dias
Tem dias em que a vida cai sobre nós com toda a fúria e a força de que é capaz, sem espaço para a piedade, mostrando sem máscaras, sem disfarces, que chegamos ao fim do túnel. Pesando no peito e nos sufocando até não poder mais.
Nesses dias lembramos de uma terrível verdade: estamos sós aqui. E que o nosso grito de dor vai ecoar para sempre no vazio escuro do dias que passam.
Tem dias em que as lágrimas vão escorrer sem parar, por horas a fio, queimando a pele do rosto com seu sal, tirando o ar, embotando as ideias.
Tem dias em que temos a dura consciência de que ninguém se importa.
Tem dias em que a vida é simplesmente coisa demais para aguentar - e que a única coisa a fazer é esperar que talvez um dia tenhamos a coragem de resolver tudo de uma só vez.
Hoje é um desses dias.
Nesses dias lembramos de uma terrível verdade: estamos sós aqui. E que o nosso grito de dor vai ecoar para sempre no vazio escuro do dias que passam.
Tem dias em que as lágrimas vão escorrer sem parar, por horas a fio, queimando a pele do rosto com seu sal, tirando o ar, embotando as ideias.
Tem dias em que temos a dura consciência de que ninguém se importa.
Tem dias em que a vida é simplesmente coisa demais para aguentar - e que a única coisa a fazer é esperar que talvez um dia tenhamos a coragem de resolver tudo de uma só vez.
Hoje é um desses dias.
27 Abril 2011
Lágrimas ocultas, de Florbela Espanca
Se me ponho a cismar em outras eras
em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!
18 Abril 2011
Há um ano... mas ainda atual
Do aço que sou
Seu chicote nas minhas costas
Serviu a um propósito maior - ironia!
Você queria rasgar minha carne
Ver meu sangue brotar
Satisfeito?
Mas não sabia que no fundo eu era feita de ferro
Assim, agradeço:
De tanto apanhar, tornei-me aço
E hoje você ainda pode me deformar, até me vergar,
O que já não pode mais, porém, é me quebrar.
Seu chicote nas minhas costas
Serviu a um propósito maior - ironia!
Você queria rasgar minha carne
Ver meu sangue brotar
Satisfeito?
Mas não sabia que no fundo eu era feita de ferro
Assim, agradeço:
De tanto apanhar, tornei-me aço
E hoje você ainda pode me deformar, até me vergar,
O que já não pode mais, porém, é me quebrar.
17 Abril 2011
Será que consigo chegar a esse ponto?
Ódio?
Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!
Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena...
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,
Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!
Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!
Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena...
Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"
Soneto de separação, Vinícius de Morais
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Certezas
Deve ser bom viver uma vida com tantas certezas: certeza de quem somos, de quem são os outros, do que é verdade, do que é mentira, de quem é bom, de quem é mal, do que é uma família, de que Deus está sempre do nosso lado e aprova todas as nossas atitudes. E de que é sempre melhor colocar nas mãos Dele o que, na verdade, deveria ser trabalho e responsabilidade nossa.
Está satisfeito?
Desculpe se depois de tanto tempo ainda estou tateando.
Tento seguir as regras que você me ensinou: se me machucam, machuco de volta. Se me batem, bato com mais força. Se me humilham, piso no pescoço.
Procurei ser uma boa aluna. Seguir seus passos.
Está orgulhoso? Estou fazendo certo? Por favor, me corrija se eu estiver errando. Quero muito acertar.
Então, novamente, pergunto: estou batendo forte o bastante, machucando o bastante, humilhando o bastante?
Espero que sim. Não quero decepcionar, muito menos envergonhar quem tanto e com tanto afinco e zelo me ensinou.
Então, por favor, me responda com sinceridade, e sem melindres:
VOCÊ ESTÁ SATISFEITO?
Tento seguir as regras que você me ensinou: se me machucam, machuco de volta. Se me batem, bato com mais força. Se me humilham, piso no pescoço.
Procurei ser uma boa aluna. Seguir seus passos.
Está orgulhoso? Estou fazendo certo? Por favor, me corrija se eu estiver errando. Quero muito acertar.
Então, novamente, pergunto: estou batendo forte o bastante, machucando o bastante, humilhando o bastante?
Espero que sim. Não quero decepcionar, muito menos envergonhar quem tanto e com tanto afinco e zelo me ensinou.
Então, por favor, me responda com sinceridade, e sem melindres:
VOCÊ ESTÁ SATISFEITO?
Para pensar 2
Que venha a vida, com seus falsos amigos, colegas demagogos, conhecidos hipócritas, amores medíocres.
Se não fosse por eles, não teríamos como separar o joio do trigo, nem como identificar o que de fato é importante e o que é completamente dispensável.
Então venham, venham todos. Não tenham pena nem comiseração. Liguem seus tratores e pisem no acelerador até atingir a velocidade máxima. E passem por cima com vontade. Várias vezes. Até não sobrar nada. Até quebrar e esmagar tudo e ficar somente o pó.
Porque é dele que vou renascer. É do pó que renascerei maior e melhor.
E com um detalhe: para sempre.
"Os outros passarão. E eu, passarinho."
Se não fosse por eles, não teríamos como separar o joio do trigo, nem como identificar o que de fato é importante e o que é completamente dispensável.
Então venham, venham todos. Não tenham pena nem comiseração. Liguem seus tratores e pisem no acelerador até atingir a velocidade máxima. E passem por cima com vontade. Várias vezes. Até não sobrar nada. Até quebrar e esmagar tudo e ficar somente o pó.
Porque é dele que vou renascer. É do pó que renascerei maior e melhor.
E com um detalhe: para sempre.
"Os outros passarão. E eu, passarinho."
14 Julho 2010
30 Junho 2010
O primeiro Natal
Pela porta entreaberta da cozinha via o pai sentado na sala de estar, as pernas cruzadas, soprando a fumaça do cigarro pela janela.
Sozinha na cozinha, ela temperava o lombinho para aquele primeiro Natal. Esfregava a carne com a marinada de temperos que a vida toda vira a mãe fazer.
Lembranças da mãe na cozinha, avental florido, as mãos trabalhando rápido entre o fogão e a pia invadiram a mente dela enquanto esfregava a carne. A saudade era pesada. Sufocava. Então fechou os olhos e se deixou levar para lá, para a cozinha da mãe...
- Xanda, me ajuda aqui.
- Tô vendo televisão, mãe.
- Anda, menina. Se gosta de comer, tem que gostar de ajudar. Todo ano é a mesma coisa. Fica tudo nas minhas costas. Ninguém...
- Tá bom, mãe. Para de reclamar. Tô indo. Que saco!
Então abriu os olhos e viu a mãe lá, ao lado dela.
Com uma lágrima pendurada no canto do olho estendeu a mão, quase tocando a mãe, que se virou para ela
e disse:
- Não se esqueça de pôr salsinha. Bastante salsinha. Seu pai gosta assim.
- Filha, precisa de ajuda? - pergunta o pai, em pé na porta da cozinha
Rápida deu as costas para ele.
- Se precisar me chama. Não precisa fazer tudo sozinha.
Ainda de costas, disse que por enquanto estava tudo bem. Quando o pai voltou para a sala, levantou os olhos e viu a mãe, que lhe sorria de volta.
- Isso mesmo, filha. Se precisar, chame alguém. Não precisa fazer tudo sozinha.
Sozinha na cozinha, ela temperava o lombinho para aquele primeiro Natal. Esfregava a carne com a marinada de temperos que a vida toda vira a mãe fazer.
Lembranças da mãe na cozinha, avental florido, as mãos trabalhando rápido entre o fogão e a pia invadiram a mente dela enquanto esfregava a carne. A saudade era pesada. Sufocava. Então fechou os olhos e se deixou levar para lá, para a cozinha da mãe...
- Xanda, me ajuda aqui.
- Tô vendo televisão, mãe.
- Anda, menina. Se gosta de comer, tem que gostar de ajudar. Todo ano é a mesma coisa. Fica tudo nas minhas costas. Ninguém...
- Tá bom, mãe. Para de reclamar. Tô indo. Que saco!
Então abriu os olhos e viu a mãe lá, ao lado dela.
Com uma lágrima pendurada no canto do olho estendeu a mão, quase tocando a mãe, que se virou para ela
e disse:
- Não se esqueça de pôr salsinha. Bastante salsinha. Seu pai gosta assim.
- Filha, precisa de ajuda? - pergunta o pai, em pé na porta da cozinha
Rápida deu as costas para ele.
- Se precisar me chama. Não precisa fazer tudo sozinha.
Ainda de costas, disse que por enquanto estava tudo bem. Quando o pai voltou para a sala, levantou os olhos e viu a mãe, que lhe sorria de volta.
- Isso mesmo, filha. Se precisar, chame alguém. Não precisa fazer tudo sozinha.
30 Maio 2010
29 Maio 2010
A vida lá fora
Aqueceu quatro salsichas na grelha, jogou um pouco de maionese e ketchup por cima, pegou um copo de refrigerante e foi para a sala.
Ia começar o filme das dez na TV a cabo.
Já tinha visto aquele filme umas três vezes. Nem era um filme bom. Mas e daí? Veria de novo. Não tinha nada melhor para fazer.
Mal o filme começou, cachorros passaram a latir lá fora. Aumentou um pouco mais o volume da TV.
Os latidos continuaram e misturaram-se a vozes e risadas. Colocou a TV no mudo e foi até a janela ver o que era.
Satisfeito, voltou para a frente da TV e para o prato de salsichas: era só a vida passando mais uma vez pela janela.
Ia começar o filme das dez na TV a cabo.
Já tinha visto aquele filme umas três vezes. Nem era um filme bom. Mas e daí? Veria de novo. Não tinha nada melhor para fazer.
Mal o filme começou, cachorros passaram a latir lá fora. Aumentou um pouco mais o volume da TV.
Os latidos continuaram e misturaram-se a vozes e risadas. Colocou a TV no mudo e foi até a janela ver o que era.
Satisfeito, voltou para a frente da TV e para o prato de salsichas: era só a vida passando mais uma vez pela janela.
Invasão
A cabeça zune. O peito pesa. O ar não é suficiente para encher os pulmões.
São os efeitos do cansaço da luta. Batalha sem fim desde o nascimento.
Não se pode vencer o destino. Não se pode mudar a história já contada em um universo paralelo qualquer.
Mais dia, menos dia, esses efeitos chegam e invadem todos nós. Invadem tudo em nós.
Então o que resta é esperar pelos letreiros finais dessa comédia amarga.
São os efeitos do cansaço da luta. Batalha sem fim desde o nascimento.
Não se pode vencer o destino. Não se pode mudar a história já contada em um universo paralelo qualquer.
Mais dia, menos dia, esses efeitos chegam e invadem todos nós. Invadem tudo em nós.
Então o que resta é esperar pelos letreiros finais dessa comédia amarga.
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